segunda-feira, 17 de julho de 2023

Os livres

 As coisas mudadas
Casas reviradas
Os furtados presos
Enquanto o frio lá fora
Esconde os livres...

Grades de proteção
A prisão particular de cada um
Alarmes toscos...

Vidros quebrados
As casas e os medos
Amontoados de pessoas sem vida própria
A espera do que não será segurado
Por todas as paredes de concreto.


                                                                                                        Autora: Letícia de Sá

Você

Assim como o sol
Assim como o sal
Brotou do nada
Surgiu na água
E me secou aos poucos...


                                                                                                        Autora: Letícia de Sá

Sorrateiramente amor

 Olhos atentos
Pra ver tudo o que se passa por dentro
Seguindo-te
Amando-te
Como loucos...

Ferozes
Passos largos enfeitam sua estrada
Seguindo-te
Amando-te
Como poucos...

Um acelerado coração
Um beijo mal dosado
Sem intenção
Um apaixonado
Que não controla suficientemente
Os seus atos tolos...

Tenha fé
Que é amor o que não falta
Ante pé
Te furtando a madrugada...


                                                                                                        Autora: Letícia de Sá

Casamento Morderno

Juntos pra sempre
Até que a morte
Os liberte do fardo
Ou que o amor
Vire ódio ou nada

Juntos
Até que o dinheiro acabe
Que a doença chegue
Que a beleza passe...

Pra sempre, mas há de perecer...

                                                                                                        Autora: Letícia de Sá

Janelas

 Às vezes tão pálido
Silencioso e cortante
Quanto o cálice estraçalhado
Das lembranças de outra noite

Aquele amor
De fogo, de sal e água,
Sabia que não acabava
Por ser tão pouco
Ser quase nada
E tudo o que tinha
Pra saciar a fome...

E toda noite
Vi entrar em meus olhos
As suas janelas d'alma
Pra encher as minhas de água
E roubar as cortinas...

                                                                                                        Autora: Letícia de Sá

Morrer de amor

 Ainda que eu coma frito todo este amor
Não hei de morrer
Por ter veias entupidas
E um coração fraco...

Ainda que eu mergulhe
Sem salva-vidas na dor
Não hei de me afogar ou secar
No rio de lágrimas
Que eu derramei...

Por isso vou vivendo...


                                                                                                        Autora: Letícia de Sá

A dor

 Os pássaros não se calam
As folhas não caem
O céu não deságua
A estrela não se apaga...

O sol não escurece
A beleza não acaba
A mentira não é descoberta
O mundo não para...

Pena
Minha dor não muda nada...


                                                                                                        Autora: Letícia de Sá

Aquela que tinha raízes

 Eu sei, querida,
Tanto deste
Tanto dá
Hoje ainda ao meio dia
Em um abraço me ofereceste abrigo...

Eu sei o quão difícil foi crescer
Apertada no limite
Entre o que pode ser seu
E o mundo de pequenos como eu...

Um dia hão de lembrar
Que no deserto foste morada
Que, quando houve fome, deste comida
E, quando ninguém mais ligava
Em um mundo de dores,
Foste tu a única que trouxeste
O mais belo dos buquês de flores...



                                                                                                        Autora: Letícia de Sá

Sem volta

 Numa estrada sem volta
"Até logo"
Meu logo pode ser mil anos
Eu não sei dizer adeus...

Não sei dizer jamais
Sempre quero mais
Mais tempo por favor
Porque pra mim amor
Não acaba com o tempo...


                                                                                                        Autora: Letícia de Sá

Um tempo

 Mais um dia
Tarde, noite,
Agora ela volta
Com o olhar cansado
Já não pode esperar...

O tempo nunca espera
Para resolver os impasses
O tempo não perdoa, o que é ruim,
Vai piorar
Se a verdade dói
Ainda há de amargar a boca
Provocar falta de ar
O tempo, meu caro,
Ainda há de te matar
É certo...

Por essas e outras
Com tantos anos esperando a hora certa
Não tendo mais hora, escolheu, claro,
A hora menos adequada
Comeu a pizza, mordeu a azeitona,
E quando ia falar engasgou-se com a
verdade
(Ou quem sabe fora mesmo com a
azeitona)
E morreu
O tempo gosta mesmo é de mistérios e
dramas...


                                                                                                        Autora: Letícia de Sá

A cobra

 Inofensivo como
Uma madeira inerte
O metal inoxidável
O balançar dos dedos
Um beijo sem língua
O olhar de longe
Quando o outro passa...

Um abraço
Um afago
Carência mina
Instinto apurado
E tudo vira flor...

Você sabia
Que olho não muda de cor
Que o cheiro da cobra
Não sai com a pele
Esse amor não mente...

Inofensivo como
A lança envenenada
A faca afiada
O dedo no gatilho
O beijo de Judas
Um olhar de Medusa
Quando você passou
O cheiro de cobra ficou...

                                                                                                        Autora: Letícia de Sá

Maré ruim

 Tirei os pés do chão
E não deu mais pé
Quando soltei sua mão
Veio a maré
A maré...

Saltei na imensidão
E o vento virou
Quando libertei meu coração
O gato miou
Tudo miou...

Tão certo
Quando se pensa
Mas não sai como o planejado
Quando eu penso em recompensa
O plano muda de lado
Tudo tem dado
Um tanto errado...

                                                                                                        Autora: Letícia de Sá

Te amar

 Me diz, amor,
Você está sofrendo tanto assim
Por aquela pessoa ruim?
Se parece justo pra você
Derramar o seu pranto
Se quem errou não deixou de se alegrar
Então siga, meu bem, com seu pesar...

Pode amar quem nunca te amou,
Chorar por quem te humilhou,
Se não te interessa
Que quem te fez mal está em festa
E é justo pra você
Quem faz o bem sofrer...

Pode chorar por quem nunca chorou,
Assumir as culpas de quem sempre errou,
Se é assim pra você
O jeito certo de se entregar
Não sou eu, meu amor, quem vai saber te amar...

                                                                                                        Autora: Letícia de Sá

quarta-feira, 12 de julho de 2023

Meu bem

Um olhar
Eu, você e o nunca mais,
Tão sem sentido
Quanto o sal do mar
Que sai dos olhos
Pra salgar palavras feridas,
Que, por suas orelhas,
nunca poderão ser ouvidas...

Caminhar,
Flutuar,
Observar os pés (eles continuam lá),
A vida como ela é
Sem nexo, com nexo,
Reviravoltas e pá!
Que história louca é essa?!
Achei que seria poupada,
O escritor da vida é um inspirado,
Não é possível prever nada...

Um olhar embaçado,
Eu, você e um "descanse em paz",
Os pensamentos já não são
Tão racionais
Porque eu sei,
Meu bem, é tarde,
Tarde e demais...

                                                                                                        Autora: Letícia de Sá

Ladainha Amorosa Clichê


O brilho nos olhos
Um respirar carregado
Sorrisos bobos
Toques sem recato
Entre palavras que não precisam ser ditas
Porque a alma palpita
Verdades deste romance clichê...

Um céu cheio de luas,
Planetas, estrelas, galáxias,
O universo inteiro e seu paralelismo
Não eram tão belos assim,
Digo por mim,
Antes de toda essa ladainha amorosa...

Sem originalidade,
Digno de um romance barato,
O tempo para, volta, dispara,
Relativiza tudo, contrariando toda a Física Clássica,
Mesmo antes de Einstein,
Quem viveu, como eu, esse chavão já sabia
Que o tempo não é absoluto (bregamente, só o amor é)...

                                        Autora: Letícia de Sá

De pai para filha


Posso falar
De sentimento
De verdade
De liberdade...

Posso traçar mapas
Com milhares de escolhar
Rotas certas e incertas
Todas elas me levariam
Livremente ao seu encontro...

Posso marcas as datas
Nos diversos calendários
Que ganhei em mercados e trabalhos
Eu posso escrever seu nome
Sua gênese
Estar presente em sua premiação
Posso considerar você
Parte do que eu quero ser...

Mas eu teria que querer,
Querer você...


                                                                                                Autora: Letícia de Sá